SERGE LUTENS LA FILLE DE BERLIN EDP

Serge Lutens La Fille de Berlin é o primeiro Serge Lutens que experimento, graças a uma amostra enviada pela marca (para quem assina a newsletter, às vezes surgem estas oportunidades. Preenchi um cadastro, cara-de-paumente fingindo que morava en France, já que não existe a opção Brésil, e não é que chegou aqui???! O que uma pessoa não faz para conseguir uma amostra!!!
Se você não sabe quem é Serge Lutens, uma pequena e breve biografia segue, mas aos interessados vale a pena pesquisar um pouco na net (sei que a maioria das informações está em inglês ou francês, cest la vie). Maquiador, fotógrafo, estilista, criador de cosméticos, cabeleireiro, designer e multitarefa em geral, trabalhou para a Vogue, a Dior e a Shiseido. Sob sua direção criativa, o famoso Shiseido Feminité du Bois (perfumista: Christopher Seldrake) foi concebido.
Nos anos 90 abriu seu próprio espaço (ligado até hoje à Shiseido), o Les Salons du Palais Royal, onde seus perfumes e cosméticos são vendidos. A marca Serge Lutens é bastante reconhecida como um nicho de perfumaria de altíssima qualidade e força criativa. A marca ganhou alguns FIFI por suas criações. Suas influências são marcantemente voltadas para perfumes orientais.
Entretanto, La Fille de Berlin, seu último lançamento, baseia-se em rosas, caindo para o oriental, claro, mas cuja personalidade dominante é a Fraulein Rosenblum! Fato: eu não sou a mais apaixonadas por rosas, quando a caixinha por si só já cheirava á rosas, não me animei muito.
Ontem, quando experimentei o perfume, na parte da tarde, estava consideravelmente mais quente (e eu estava com fome) e eu achei a abertura abafada, muda, metálica, com aquela parte esquisita da rosa, que lembra sala de dentista , gritando por uns momentos (geraniol-menta combando?)! Foi esquisito. Hoje, porém, pela manhã, nova experimentação, barriguinha cheia; a rosa é vívida, fresca, com pólen e tudo. Uma notinha de café é percebida! Sim, até chequei para ver se era a minha caneca misteriosa, mas o café de La Fille de Berlin é melhor que o da minha caneca.
É importante dizer que, bem, estas rosas são beeem naturais. Parecem as rosas do meu jardim. Aliás, o perfume é tinto, cor-de-rosa antiga, e o que quero dizer com isso é que o líquido dá a impressão de que vai manchar a sua pele. (não o fará).

Depois, a metamorfose das notas de saída apresenta um cheiro metálico (Já lambeu metal? Mordeu? É um bom jeito de saber que cheiro-gosto tem), tipo sangue, talvez. Depois, o perfume revela nuances mentoladas. Tudo isto ainda nos primeiros 20 minutos de evolução, tá?

O perfume atalca, claro, são rosas afinal, polvilhado por violetas ríspidas, e pimentas em grão moídas.A parte especiada é bem consciente e diluída, aliás, então apenas realça a magnificência das rosas (aquelas vermelhas, gigantes, repolhudas, quentes de sol, que você esmaga com as mãos).
Doce, La Fille de Berlin começa a frequentar umas penteadeiras de boudoir bastante decadentes, um pouco melancolicamente, na minha opinião.

O perfume tem evolução lenta, ontem depois de umas 4 horas comecei a sentir o musk (para mim, bastante nítido e não inteiramente do meu agrado, mas o que importa é que conseguiu passar com propriedade o aspecto erótico e feminino, de La Fille de Berlin). Cada vez mais almiscarado e amadeirado, é esta é a minha fase preferida da fragrância. As madeiras finalmente se aquecem e se juntam ao musk, e existe uma espécie de reavivamento da rosa, agora mais amarga, e interessante. O perfume levou suas variações em até aproximadamente 8 horas, quando um cheiro de mulher, quando enfim começou a desvanecer, levando mais umas duas horas para que eu deixasse de percebê-lo com clareza.

Bom, La Fille en Berlin não é um perfume para mim. Não quer dizer que não seja bom para outra pessoa, porque, é, obviamente, bem executado. Eu é que não tenho esta vibe gótica- expressionista-cabaret.
Aliás, Serge Lutens, La Fille de Berlin, tem um quê decadente e romântico, que eu tentei identificar como a cara da garota de Berlim. Não que eu já tenha parado para pensar como são as garotas de Berlim, mas de fato, não consegui a proeza de imaginar uma jovem europeia moderna usando este perfume. Assim, um pouco frustrada, tentando entender onde se encaixava esta decadência romântica toda, um pouco abafada e metálica, cheguei a conclusão de que a visão de Lutens sobre a garota de Berlim não é atual, e sim, uma visão cristalizada, algo que estereotipa a mulher berlinense (e a alemã, em geral), para o mundo.

Aí, cheguei numa epifania (ou não, como diria Caetano): La Fille De Berlin é a mulher alemã como retratada do pós-guerra. Embora soubesse mais tarde, que Lutens lançou recentemente um livro de fotografias intitulado apropriadamente Berlin à Paris, e também que a fragrância teria sido inspirada em Marlene Dietrich, notadamente em seu papel em Morocco, fiquei com isto na cabeça . Mais tarde, descobri também que diversos blogs sobre suas impressões e relacionam a fragrância à Metropolis e a estética expressionista (não acho que caiba, entretanto). E também, penso que Dietrich não poderia cheirar a rosas, e bem, onde está o metal?

O perfume tem uma longevidade excelente, uma projeção inicial absurda (gruda na roupa horrores, mesmo sem querer), mas amansa depois das 3 horas iniciais. A sillage feminina, decadente, melancólica e frágil-forte me lembra uma mulher ferida, ou uma rosa cujos espinhos estão prontos para defendê-la.
Definitivamente, La Fille de Berlin não me impressionou pela criatividade, mas pela consistência em transmitir um conceito.

Perfumista: Christopher Seldrake.
Nota; Não aguentei ver inteiro o vídeo booooooring que tem na loja online com um longo texto críptico escrito pelo próprio Lutens, sobre o perfume. Mas você pode tentar. AQUI.

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